O homem que renovou o frevo de Recife

O frevo praticamente inexistia fora das fronteiras do carnaval quando o produtor e compositor Carlos Fernando (morto no último domingo, aos 75 anos, vítima de complicações decorrentes de um câncer de próstata) idealizou o disco “Asas da América”, lançado em 1979. No álbum, artistas consagrados (Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jackson do Pandeiro) e nomes que se tornariam grandes (Geraldo Azevedo, Elba Ramalho, Alceu Valença) renovavam o olhar sob o gênero. O disco deu origem a uma série de sete álbuns e a outros do tipo (como “Recife frevoé”, com cinco volumes), que acabaram se tornando o maior legado de Carlos Fernando: renovar o olhar sobre o frevo pernambucano.
— Ele deu tratamento pop futurista ao gênero. Acelerou o andamento e trouxe arranjos contemporâneos, introduzindo a guitarra no frevo pernambucano, assim como os teclados. — define o produtor Geraldinho Magalhães, amigo e assistente de Carlos Fernando no início da carreira. — E conseguiu levar para o frevo nomes como Caetano e MPB4, quando o gênero andava bastante esquecido.
Natural de Caruaru, Carlos Fernando foi um personagem marcante da cultura recifense a partir dos anos 1960 — primeiro no teatro e depois na música, ao lado de artistas como Teca Calazans, Naná Vasconcelos, Jomard Muniz de Britto, Quinteto Violado e os parceiros Alceu Valença e Geraldo Azevedo.
— Ele era um pouco mais velho que eu, conheci Carlos Fernando quando entrei no circuito cultural de Recife, já tocando violão — conta Geraldo Azevedo. — Fui assistir a uma peça dele e, depois, disse: “Carlito, você devia escrever letra de música”. Pouco tempo depois ele me deu os versos de “Aquela rosa”. Foi a primeira vez em que musiquei algo. Depois, com outros amigos, fundamos o Grupo Raiz, dedicado a música, literatura e folclore. Tivemos até um programa na TV de Recife, “Chegou a vez”.
Gravada em 1967 por Teca Calazans, “Aquela rosa” venceu o Festival de Música Popular do Nordeste e deu início à carreira de compositor de Carlos Fernando. Ele ainda faria música para para TV (“Saramandaia”, “Sítio do Pica-pau Amarelo”) e cinema (“Pátria amada”, de Tizuka Yamazaki). Entre seus maiores sucessos estão “Canta coração” (em parceria com Geraldo Azevedo) e “Banho de cheiro” — ambas gravadas por Elba Ramalho.
Sua grande contribuição, porém, foi ter idealizado e produzido discos como o “Asas da América”, chamando a atenção para o frevo. “Eu sonhava em fazer o frevo voar, sair da Pracinha do Diário e voar pelo mundo todo”, disse na época do lançamento do primeiro volume. Em discos quase integralmente de composições suas (só ou com parceiros), ele reunia a nata da MPB e nomes promissores da música nordestina. Além dos citados, passaram pela série Amelinha, Fagner, Zé Ramalho, Frenéticas, Luis Caldas, Lulu Santos, Moraes Moreira, Alcione, Lula Queiroga e Lenine. O último da série foi o infantil “Asinhas da América” (1995).
— A série “Asas da América” tinha o mapa do Brasil, artistas de diversos lugares — avalia Alceu, que estava organizando um show em tributo a ele em Recife quando recebeu a notícia da morte. — Com Carlos Fernando, o carnaval de Pernambuco voltou a ter uma trilha sonora contemporânea.
ARTISTAS DA NOVA GERAÇÃO
Geraldo Azevedo nota que o produtor foi fundamental para o que aconteceria na música pernambucana anos depois:
— A Spok Frevo Orquestra, por exemplo, é filha da semente plantada por ele.
Carlos Fernando chegou a trabalhar com a orquestra citada por Geraldo. Ele produziu “É de perder o sapato — 100 anos de frevo” (Biscoito Fino), que aglutinava mais artistas da nova geração em torno do gênero, como Maria Rita e Vanessa da Matta, além de maestro Spok e seus músicos.
Para Alceu e Geraldo ele teria importância especial. Foi o responsável pela aproximação deles no Rio:
— Um dia depois encontrar Alceu, fizemos “Talismã”, que está em nosso primeiro disco (de 1972) — conta Geraldo.
Fonte: O Globo

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